sábado, 27 de setembro de 2014 • por Pés Viajantes

Morar fora de sua cidade é uma experiência no mínimo “diferente”, provavelmente para todo mundo. Hábitos diferentes, regras diferentes, qualidades, paisagens, pessoas, fala/língua... podem haver algumas semelhanças, mas principalmente diferenças. E como um ser vivo qualquer, o nosso grande desafio sempre é se adaptar ao novo habitat, ao novo estilo de vida. Mas o que esperar quando se viaja para outro país, para viver durante um mês e meio em uma cidade um tanto isolada, muito pequena, e com um estilo de vida totalmente diferente do seu?

Quando desembarcamos do ônibus na cidade de Camerino – região central da Itália – após uma viagem de pouco mais de quatro horas, não tínhamos a resposta para essa pergunta. Nossa expectativa era muito baseada em suposições, senso comum e opiniões de diversas pessoas que conviviam com nós em Curitiba. Viver um mês em Camerino não seria tão ruim. Um pouco de tédio, talvez. Poucas pessoas da nossa faixa etária estariam na cidade, pois chegaríamos no período de férias dos alunos da universidade. Mas um mês passaria rápido, e a tranquilidade e beleza dessa pequena cidade – já conhecíamos praticamente a cidade inteira por vídeos e fotos da internet – compensariam tudo isso. Seria divertido e até romântico brincar de viver como um Italiano Vero.

Mas Camerino é mais. Bem mais do que só “uma cidade tranquila”, como definiu nossa tutora aqui na Itália. E não levou muito tempo para percebermos isso. Passeando pela cidade durante a primeira semana, notamos que vivíamos na mesma cidade que aqueles senhores e senhoras que andavam lentamente pelas ruas estreitas, mas não vivíamos o mesmo tempo que estas pessoas. Saíamos para almoçar, ou comprar algo, ou ir à farmácia, ou para fazer qualquer outra coisa no início da tarde, mas não havia ninguém, nenhum comércio aberto. Os horários peculiares de Camerino – das 09:30 às 12:30 / das 16:30 às 19:30 – foram nosso primeiro choque. E se você nos perguntar o que há de bom nisso, diremos que só vivendo aqui para entender o quão maravilhoso é o tempo nessa cidade.

A teoria de que ficaríamos entediados caiu por terra logo nas primeiras semanas. Camerino se mostrou uma cidade muito cultural e que procura promover variados eventos para sua pequena população. Assistimos uma noite de danças típicas de diversas nações, a apresentação de uma pequena orquestra local e de outros grupos musicais, um show de blues, e até mesmo um show de bandasde rock amadoras e – pasmem! – um concurso de “Miss Marche”, uma fase eliminatória para a escolha definitiva da Miss Itália, com a participação de atores e cantores bem conhecidos no país. O mais legal de tudo é que todos esses eventos aconteceram em praça pública e reuniram pessoas de todas as idades.

O primeiro domingo em Camerino também foi uma surpresa agradável. Não acordamos muito cedo como os velhinhos que foram à missa, mas quando acordamos e saímos na rua a cidade estava completamente deserta. Nada abriu naquele dia, só durante a manhã, enquanto dormíamos. Caminhamos por toda a cidade – o que leva cerca de 15 minutos por aqui – e encontramos o lugar mais lindo daqui: La Rocca. Quando chegamos neste parque, que fica junto às antigas muralhas que guardam a cidade, não havia muita gente. Mas como o dia estava muito bonito, durante a tarde os moradores trouxeram seus filhos e animais de estimação para brincar, e logo entendemos que esse era o programa de domingo para o povo daqui. Foi uma das melhores tardes que tivemos nesse mês.

Camerino mostrou ser “mais” por diversas pequenas coisas. Se você vai ao Bar Centrale no fim da tarde e pede qualquer bebida, o garçom te traz aperitivos para acompanhar. Aqui não tem problema se você deixar seu varal de roupa secando do lado de fora, ou se você esquecer a janela ou a porta de casa aberta durante a madrugada toda – experiência própria. Ninguém vai entrar na sua casa ou levar suas roupas embora. Se você “fizer contato” com alguma pessoa mais de uma vez, esqueça as formalidades, ela vai lembrar de você e passará a te cumprimentar com um simples “Salve!”. Em Camerino você anda na rua, no meio dela, e só desvia para o canto quando um carro passar, se um carro passar. Existe também vida noturna aqui, caso você não esteja satisfeito só com os programas culturais. Asterix e Dada Zen são pubs muito bons, com ótima comida e diversos tipos de bebida, onde você encontra pessoas do mundo todo por conta de uma escola de idiomas e da universidade na cidade. E não existem lugares melhores para treinar o italiano do que esses pubs, onde as noites vão até às 04:00 da manhã se você quiser, apesar de ser uma cidade com muitos moradores idosos. Ah, e o mais importante de tudo: aqui o gelato é maravilhoso! Mas isso não é exclusividade local, pois ele é maravilhoso em toda a Itália.


Camerino é mais por tudo isso. É difícil escrever tudo o que vivemos aqui pois, no fim das contas, um mês nunca “passa rápido” quando se está em um lugar tão especial e peculiar. Cada dia aqui foi uma experiência diferente e imprevisível. Conhecemos pessoas de todo o canto, com histórias de vida diversas, e seria impossível contar o que aprendemos com cada uma delas. Agora que estamos perto de ir para outra cidade, onde passaremos o resto do ano, ficamos com a certeza de que essa picolina  città é muito mais do que esperávamos, e de que não estamos dizendo “adeus”, mas simplesmente um “até logo”. Sendo assim, a presto Camerino!





















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